ARTIGO DA VEZ: OS SEGREDOS DA BANDEIRA DE PERNAMBUCO

Os “ismos” estão envenenando a sociedade contemporânea

2/5/20267 min read

Há um bom tempo, tenho compartilhado esse pensamento com familiares, amigos, colegas e parceiros de trabalho. Enquanto coletivo civilizado poderíamos ter avançado muito mais se não estivéssemos acorrentados às ideologias.

Ainda hoje, o pensamento humano está, em boa parte, enlatado para consumo dos fanáticos. É bem estranho que, em uma realidade complexa e mutante, muita gente ainda pense a partir de receitas antigas, seguindo as fórmulas dos “ismos”.

Essa obsessão empobrece o debate público, gera discórdia permanente e trava o avanço econômico e social.

Resumindo: quando o debate se converte em um duelo de “ismos”, a realidade é, primeiramente, desprezada; depois, é aniquilada e substituída pelo dogmatismo venenoso dos chamados militantes.

Isso vale para o comunismo, para o fascismo, para o socialismo, para o neoliberalismo, para o petismo, para o bolsonarismo e para os sistemas fechados de pensamento. Até o “ismo” religioso, frequentemente, se torna um elemento tóxico nas relações sociais.

Felizmente, não sou o único que pensa assim. Lá atrás, Hannah Arendt afirmou que as ideologias criam ficções de mundo. Segundo ela, o perigo é que “elas pretendem explicar absolutamente tudo”, eliminando nosso raciocínio crítico.

O filósofo Karl Popper foi além. Ao combater marxismos rígidos e fascismos autoritários, ele afirmou que as ideologias transformam hipóteses em dogmas. Em sua visão, os “ismos” se tornam prisões mentais que impedem a experimentação social.

Zygmunt Bauman considerou absurda a fixação em conceitos rígidos se vivemos em um mundo fluido. Segundo ele, as categorias herdadas do Século 20 já não servem para compreendermos a sociedade líquida do Século 21. “As velhas certezas se dissolveram; insistir nelas é um convite ao desastre”, advertiu.

O italiano Norberto Bobbio, que escreveu sobre as diferenças entre direita e esquerda, defendia a democracia com campo de negociação, não como território de trincheiras. “A política moderna sofre quando se transforma em uma guerra de palavras”, sentenciou.

Depois de trabalhar em algumas das maiores empresas do país, e liderar algumas delas, mantenho-me firme da defesa da livre iniciativa, do direito à propriedade, da economia de mercado e da redução da interferência do Estado nas atividades produtivas.

Rejeito fortemente as camisas de força que limitam a liberdade de pensamento. Ainda assim, a bússola política me coloca mais próximo do pensamento liberal sensível às mudanças sociais.

Às teses já citadas, portanto, agrego outras. Sou um entusiasta das iniciativas por igualdade (racial e de gênero), da educação pública de qualidade, do acesso universal à saúde básica, das leis de proteção ao trabalhador e das políticas de inclusão social e econômica.

Não me vejo sozinho neste território da visão política. Muitos desses pilares de pensamento estavam presentes, por exemplo, no New Deal, o conjunto de programas econômicos e sociais implantados pelo presidente Franklin D. Roosevelt para tirar os Estados Unidos da Grande Depressão.

Essa combinação de valores também esteve presente em muitos governos e ações privadas em países como Canadá, Suécia, Noruega e Dinamarca, que se notabilizam por economias competitivas e altos índices de desenvolvimento humano.

Em tempos recentes, no entanto, o fanatismo radical levou muitos liberais genuínos a serem injustamente chamados de “comunistas”.

Ora essa!!!

A falta de instrução e a deturpação de conceitos, especialmente nas vias digitais, criou esse estigma. O “comunismo”, a rigor, é uma corrente política de matriz marxista. Nele, os meios de produção, ou seja, indústrias, terras, instituições financeiras e recursos naturais pertencem coletivamente à sociedade, administrados pelo Estado.

Bem, esse nunca foi o meu modelo de pensamento político, tampouco de inúmeras figuras de destaque que, com base nos pilares de ESG, fazem empresas responsáveis, inclusivas e, ao mesmo tempo, lucrativas.

Antes de tudo, é preciso prestar atenção à semântica e lançar luzes sobre o debate. “Comunismo” e “Comunhão” dividem a mesma raiz etimológica. Provêm do latim communis, que designa o que é “comum”, “compartilhado por todos” e também o “serviço mútuo”.

O papa Francisco não era marxista nem leninista, mas também recebeu a alcunha de “comunista”. Em 2014, em uma entrevista ao jornal Il Messaggero, ele foi questionado sobre sua ideologia. E respondeu:

- Eu só posso dizer que os comunistas (marxistas) têm roubado a nossa bandeira. A bandeira dos pobres é cristã – afirmou, citando passagens bíblicas que ensinam sobre a necessidade de ajudar os pobres, os doentes e os necessitados.

O pontífice acrescentou, com seu característico bom humor:

- Os comunistas (marxistas) dizem que tudo isso é comunismo. Claro, vinte séculos mais tarde.

O papa frequentemente se referia às práticas adotadas pelas comunidades cristãs primitivas, como aquelas lideradas por Tiago, Pedro e João. Essas experiências são narradas nos Atos dos Apóstolos e consistiam em uma tentativa de antecipar, na Terra, o Reino de Deus, onde todos contribuiriam para o bem comum e ninguém passaria necessidade. De novo, a ideia de “serviço mútuo”. Nunca a do monopólio estatal ou da “ditadura do proletariado”.

Eu, que fui um bom e disciplinado seminarista na adolescência, ainda mantenho a crença nos ensinamentos do carpinteiro de Nazaré, que nasceu dezoito séculos antes de Karl Marx. E creio que ele não abonaria, por exemplo, as desastrosas coletivizações forçadas de Joseph Stalin e de Mao Tsé-Tung.

Vale lembrar que o atual papa escolheu seu nome baseado na obra e no exemplo do pontífice Leão XIII, que escreveu, em 1891, a Rerum Novarum, a primeira grande encíclica social da Igreja Católica.

Nela, o então bispo de Roma criticou a proposta marxista de abolição da propriedade privada, afirmando que era um direito natural dos homens. Ao mesmo tempo, condenou a exploração dos trabalhadores, defendeu salários justos e o direito de todos ao repouso e ao lazer. Propunha, pois, um esforço coletivo para gerar equilíbrio entre o capital e o trabalho.

Pois, as enormes desigualdades apontadas por Leão XIII, há 134 anos, ainda persistem, mesmo com imensos avanços científicos e tecnológicos que marcam o mundo contemporâneo. De acordo com pesquisa da Wealth X, publicada em janeiro do ano passado, a riqueza dos cinco homens mais ricos do mundo (Elon Musk, Bernard Arnault, Jeff Bezos, Larry Ellison e Mark Zuckerberg) havia dobrado (114%) de 2020 até 2023. No mesmo período, os 4,77 bilhões de pessoas mais pobres haviam perdido 0,2%, em termos reais, de sua riqueza.

Em julho de 2024, segundo o relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo, publicado por cinco agências especializadas das Nações Unidas, cerca de 733 milhões de pessoas haviam passado fome em 2023 (9,1% da população global), o equivalente a uma em cada 11 pessoas no mundo.

O relatório também destacou que o acesso a alimentos adequados continuava inatingível para bilhões de pessoas. Em 2023, aproximadamente 2,33 bilhões de indivíduos enfrentaram insegurança alimentar moderada ou grave, um número que não se alterou de modo significativo desde o aumento registrado em 2020, durante a pandemia de Covid-19.

Essas informações nos alertam para a necessidade urgente de criar programas e investimentos sustentáveis para combater a fome e promover globalmente a segurança alimentar. Enquanto resultados concretos não são obtidos, esperemos que esses marginalizados não caiam como um tsunami sobre aqueles que constituíram meios dignos de subsistência.

Um excelente estudo realizado no Rio Grande do Sul, sob liderança do professor Joseph Murray, acompanhou o desenvolvimento de milhares de indivíduos, desde o nascimento, até os 30 anos de idade. Uma conclusão fundamental da pesquisa é que a exposição à pobreza no nascimento, na primeira infância e no início da idade adulta praticamente dobrou as chances de envolvimento com atos violentos, de modo especial na participação em homicídios (1).

Essa constatação é fundamental para se atualizar o debate acerca do empenho público e privado em geração de renda e inclusão social. Em uma sociedade violenta, estão inseguros também os filhos da classe média e das elites econômicas. Na rua, os bem-educados e bem-alimentados herdeiros das famílias de posses vão se encontrar, inevitavelmente, com os aflitos e ressentidos que sofreram as dores de um sistema injusto e excludente.

Por fim, como sou um homem do varejo, sei exatamente como é importante gerar educação, saúde, renda e poder de compra para todos os cidadãos. Sem o José e a Maria, alçados à categoria de consumidores de produtos e serviços, não existe futuro para um Magazine Luiza, para uma Riachuelo, para uma Drogasil, para uma Pernambucanas, para um Bompreço.

Quero lembrar uma ideia lapidar do já citado presidente Roosevelt, exposta num Fireside Chat, uma conversa pelo rádio, em 1933.

- Se todo o nosso povo tiver trabalho, salários justos e lucros justos, essas pessoas poderão comprar os produtos de seus vizinhos. E os negócios irão bem. Mas se você tirar os salários e lucros de metade deles, os negócios serão apenas metade bons. Não ajuda muito se a metade afortunada é muito próspera. O melhor é que todos sejam razoavelmente prósperos.

Resumindo, ter carinho pelas pessoas, preocupar-se com os pobres e com a justiça social não tem nada ver com comunismo marxista, mas com um compromisso ético em favor do desenvolvimento integrado e sustentável da sociedade. É a maneira natural de constituir uma economia forte, inclusiva, diversificada e capaz de estabelecer um círculo virtuoso de conquistas para todos.

É lamentável quando posturas socialmente responsáveis – mesmo no meio empresarial - são classificadas, equivocada e levianamente, como “comunismo”. Quando isso ocorre, desmobiliza-se o espírito cooperativo, mantêm-se a desigualdade, reduz-se o público consumidor e, por fim, sabota-se a própria economia de mercado.

Concluo este texto reiterando minha viva preocupação com esses ideólogos de ocasião, oportunistas, sempre prontos a rotular, carimbar e difamar as mentes e vozes dissonantes.

Se a exigência é por um rótulo, um “ismo”, eu repito a ironia de Cazuza: “Ideologia... eu quero uma pra viver”.